Entrevista com André Schmidt

André SchmidtEle montou seu primeiro blog em 2008, pois guardava recortes de jornal e estatísticas do Vasco desde 1996, quando ainda tinha 11 anos, e resolveu compartilhar isso no blog – Boteco do Portuga o nome. O que era pra ser um trabalho da faculdade se tornou um hobby e, posteriormente, o pontapé inicial da sua carreira. Isso acabou abrindo algumas portas.

No ano seguinte o convidaram para contribuir para o site SuperVasco e em 2010 para escrever no ‘Os Geraldinos’, que na época era um blog hospedado no site da Placar. Seu blog acabou virando um site, SãoJanuário.Net, e em 2013 voltou a ser blog, o Blog do Garone.

Em 2014, uma semana antes da Copa do Mundo, foi chamado para trabalhar no setor de Mídias Sociais do LANCE!. Acabou sendo contratado em definitivo e três meses depois seu blog passou a fazer parte também do LANCE!Net. Em 2015 criou mais um blog para o LANCE!, o Números da Bola, que traz estatísticas e curiosidades do futebol. Hoje ele é o responsável por ambos.

Como e quando o esporte entrou em sua vida?

Sempre pratiquei esportes. Joguei futebol, futsal, handebol, pratiquei natação, fiz 14 anos de karatê… Então sempre foi algo presente na minha vida. Mas como eu não era bom o suficiente para ser profissional em nenhum (rs), decidi optar pelo Jornalismo Esportivo para me manter neste meio. Cresci ouvindo os jogos no rádio com meu avô. Quando eu tinha uns 10 anos, ele me deu de aniversário quatro pastas com seus recortes de jornal das décadas de 40 e 50. Aquilo se tornou meu pequeno tesouro. Talvez ele tenha feito para me aproximar do Vasco, nosso clube, mas acabou despertando em mim também o gosto pela comunicação e pela literatura. Depois disso, todos os dias ele me comprava o jornal – Jornal dos Sports na época, onde tive a oportunidade de escrever como convidado por um dia, em 2010, após uma breve pausa da empresa -, isso acabou fortalecendo esse laço com o esporte e o jornalismo desde a minha juventude.

Você escreveu o livro “Da queda ao bi” contando a trajetória do Vasco no Campeonato Brasileiro 2015 até a conquista do bicampeonato carioca em 2016. Por que a decisão de escrever sobre o tema, visto que ele trata em parte de um momento triste na história do clube (mais um rebaixamento)?

O tema não é o rebaixamento, apesar de passar por ele. É um livro de crônicas, de textos mais voltados para o lado emocional dos jogos, com o olhar do torcedor. Não apenas com relação ao que aconteceu em campo, mas o que isso provocou nas arquibancadas. E nada mais dramático no futebol do que um rebaixamento. Quando alguém me pergunta, costumo dizer que não é um livro sobre futebol, mas sobre o que ele causa. E momentos ruins carregam essa carga emocional bastante aflorada. O livro na verdade conta, em forma de crônica esportiva, como foi a trajetória de um time praticamente rebaixado já no 1º turno, mas que ganha uma sobrevida após a chegada de Jorginho – é o ponto inicial do livro -, vence clássicos, chega vivo até a última rodada da competição, cai, mas segue uma crescente até conquistar o bicampeonato carioca invicto. Ou seja, a queda é importante como um contraponto do título. É simbólico.

Você contou com o apoio do clube?

Não. Na verdade nem procurei. Quando recebi o convite para fazer uma coletânea das minhas crônicas, o clube sequer havia sido campeão estadual. A ideia era publicar os textos independente de taça, queda ou algo do tipo. A conquista só agilizou o processo e deu um tema específico. Como quase todo o material já estava pronto, não teve nem tempo para procurar o clube. E o contato inverso também nunca houve.

Como foi a recepção do público ao livro?

Muito boa. Eu confesso que não esperava tanto carinho das pessoas. Sou novo, trabalho em um grande jornal a relativamente pouco tempo, não imaginava sequer lançar um livro tão rápido. Muito menos contar com mais de 200 pessoas nos lançamentos que fizemos. Principalmente no do Rio, onde nunca morei e tenho poucos amigos. Foi bem legal encontrar pessoas que eu não conhecia pessoalmente e que tiraram um tempo do seu dia só para me conhecer e prestigiar o meu trabalho. É gratificante.

As únicas críticas negativas que recebi de alguns foi por tratar do rebaixamento, como você mesmo me perguntou. Mas, nesse caso, veio apenas de quem não leu, por não saber do que se trata. O famoso julgar um livro pela capa. Acredito que eu tenha errado no título (rs), mas isso a gente vai aprendendo com tempo. Como disse, não é um livro de história, é uma coletânea de crônicas, que segue uma curva de ascensão, por isso, começa de baixo.

Quais as maiores dificuldades que você encontrou quando estava escrevendo?

As crônicas do livro foram escritas inicialmente para o Blog do Garone, então muita coisa já estava pronta quando recebi o convite. A grande dificuldade é a normal do dia a dia de quem faz crônicas. Como eu faço esse tipo de texto apenas sobre o Vasco, às vezes é como tirar leite de pedra. Como dizia Nelson Rodrigues, nada mais melancólico do que um empate em 0 a 0. Derrotas e vitórias mexem com o emocional, a igualdade dá um ar de impotência, de derrota dupla. Esse texto é o mais difícil. Por serem crônicas, terem um lado mais romanceado dos lances, da partida, alguns jogos são mais difíceis de arrancar algo diferente. São mornos demais, não fazem rir e nem chorar. Mas entendo que este seja o desafio de todo cronista: trazer algo novo em cada texto.

Apesar de um mercado ainda restrito, vemos que anualmente são lançados centenas de livros esportivos. Afinal, livro que tenha esporte como tema alcança uma boa vendagem?

Sem dúvida alguma. O futebol é, de uma forma geral, um grande mercado. O consumo, o interesse, é altíssimo. A página do meu blog, por exemplo, hoje conta com mais de 115 mil fãs. E a grande maioria por causa das crônicas. Exatamente as que foram para o livro. Então público existe. O que falta, eu acho, é uma abertura maior das livrarias para esse tipo de livro. Acho que as vendas têm se concentrado muito no on-line, até por causa dos e-books, mas a loja física, assim como a versão impressa, é fundamental. Qual torcedor que não olha mais atento para um loja, seja ela do ramo que for, após ver o escudo do seu clube? Em uma livraria não é diferente.

Para grande parte dos escritores de livros esportivos, o que conta é a satisfação pessoal e não o retorno financeiro, pois na maioria das vezes ele é bem modesto. Também é assim com você?

Com certeza. Acredito que o simples fato de você ser publicado é uma honra enorme. Olhar para a estante e ver algo que você criou, suas palavras, suas ideias ali registradas, é de uma alegria sem igual. Pensar que daqui 100 anos, em um sebo qualquer do Brasil – vendi livros para todos estados e ainda para leitores de Portugal, Estados Unidos e Holanda – alguém poderá pegá-lo para ler e talvez se emocionar com algo sentido um século antes, é uma forma de você se eternizar. Meu sentimento, pelo menos, é esse.

Algum novo projeto em andamento?

Sim. Estou escrevendo mais um livro de crônicas, dessa vez com muitas inéditas, mas não sobre o Vasco, sobre futebol em geral. Alguns contos, textos em prosa… Algo que possa ser lido por todos, atemporal. Quero fechar 45 textos, a mesma quantidade de minutos de um tempo. Já estou com 22 prontos. Espero que até fim do ano eu consiga fechar todos e publicar.

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