Entrevista com Arthur Simões

Arthur SimõesArthur Simões nasceu em São José dos Campos e cresceu em Jacareí, cidades vizinhas no estado de São Paulo. Mudou-se para São Paulo em 2000, para estudar Direito na Universidade Mackenzie, onde se graduou em 2004, quando recebeu o prêmio de melhor monografia do ano com seu trabalho intitulado Desobediência Civil, uma Crítica ao Positivismo Jurídico.

Em sintonia com esse espírito de desobediência, Arthur mudou radicalmente os rumos de sua vida, abandonou o Direito e decidiu cair no mundo. Em 2006, após quase um ano de planejamento, teve início o projeto Pedal na Estrada, uma solitária volta ao mundo sobre duas rodas, com o objetivo de colaborar e inovar a educação dos estudantes brasileiros.

Durante 3 anos e 2 meses Arthur permaneceu sem lugar fixo, somente com sua bicicleta como casa. Com uma bagagem de cerca de 30 quilos, pedalou quase 40 mil quilômetros, passou por 46 países em 5 continentes, visitou centenas de cidades, conheceu milhares de pessoas, usou 15 pneus, diversas correntes, pastilhas de freio e viveu inúmeros encontros, desencontros, despedidas, descobertas, dúvidas, noites mal dormidas, medos, vitórias, sorrisos, choros, dois acidentes e muitos aprendizados.

Aos poucos esse projeto remodelou a vida de Arthur. Após seu retorno em 2009, passou a se dedicar à fotografia, fazendo trabalhos para revistas e agências, assim como realizando exposições, palestras e cursos com base em sua experiência de viagem e na fotografia.

Em novembro de 2011 lançou o livro O Mundo ao Lado, no qual relata as experiências e reflexões mais marcantes de sua viagem pelo mundo. A segunda edição deste livro foi lançada em maio de 2014, pela Editora Phorte.

Em abril de 2012 realizou no Sesc Vila Mariana a exposição O Mundo ao Lado: cinco continentes, uma bicicleta e uma câmera fotográfica. Em fevereiro de 2015 realizou a exposição individual Viagens simultâneas, diferentes destinos no Sesc Bauru, com fotos de sua maior viagem.

De uns anos para cá, se firmou como fotógrafo, além de criar e coordenar projetos de viagens para pessoas e empresas.

Fale-nos da sua trajetória profissional.

Minha trajetória profissional é tão sinuosa quanto as estradas do mundo. Me formei em Direito na Universidade Mackenzie em São Paulo, mas antes disso já sabia que aquela profissão não era bem para mim, assim durante os 2 anos que antecederam a volta ao mundo de bike eu fui professor de yoga. Depois posso dizer que me tornei um viajante profissional, já que o projeto era patrocinado por algumas empresas. Quando voltei ao Brasil sabia que voltar ao Direito seria impossível e ao yoga seria bem difícil também, comecei então a vender minhas fotos para revistas de viagem, o que me levou a viajar e escrever para diversas revistas e depois me firmar como fotógrafo, o que eu faço até hoje. De uns anos para cá, além da fotografia, eu também me dedico a criar e coordenar projetos de viagens para pessoas e empresas, geralmente viagens diferentes e únicas, com algo de aventura envolvido.

Como e quando a bicicleta entrou em sua vida?

A bicicleta entrou na minha vida bem cedo, aos 4 anos de idade, desde então nunca parei de pedalar, mas a bicicleta se reinventou nestes 30 anos comigo. No início era uma ferramenta de liberdade, diversão e descoberta, pedalar para longe de casa e descobrir o que estava além do meu conhecimento no bairro e depois na cidade era uma grande aventura naquele momento. Mais tarde, na minha adolescência, se tornou um instrumento de independência, com a bicicleta podia pedalar para diversos lugares sem depender de ninguém, foi nesse período que descobri que podia ir mais longe do que pensava apenas pedalando. Aos 13 anos eu fazia pedaladas de 80 km de distância, de Jacareí à Taubaté e o retorno. Voltava acabado, mas aquelas pedaladas com amigos eram sempre um desafio e uma grande diversão.

Quando me mudei para São Paulo, por conta da faculdade, logo trouxe minha bicicleta comigo e comecei a me locomover pela cidade de bike. Isso causou espanto em quase todos os meus colegas de faculdade, era o ano 2000 e pedalar em São Paulo para a maioria das pessoas se aproximava mais de um ato suicida que de uma forma aceitável de transporte. Havia de fato riscos maiores que atualmente e raramente eu encontrava alguém pedalando pelas ruas, mas mesmo assim era uma forma divertida e econômica para um estudante quase sempre quebrado conhecer e percorrer uma das maiores cidades do mundo.

Por que a decisão de dar a volta ao mundo de bicicleta?

Nesse período de faculdade eu entrei em contato com o cicloturismo através de um amigo. Fazia pedaladas longas, mas nunca havia feito uma viagem propriamente dita apenas pedalando. Minha primeira viagem foi pela Estrada Real, numa época em que ela estava bem no começo, pouco explorada e ainda bastante autêntica. Eu e mais dois amigos passamos pouco mais de uma semana pedalando pelas montanhas mineiras, parando em cachoeiras, comendo bem e aproveitando da grande hospitalidade da região. Foi uma viagem muito boa e que me fez querer viajar mais sobre duas rodas.

Entre viagens relativamente curtas que eu fazia pelo Brasil eu soube de um alemão que estava dando a volta ao mundo de bike, uma viagem de anos que cruzava o Brasil naquele momento. Quando soube disso custei a acreditar. Era como se algo impensável houvesse sido apresentado para mim. Como alguém poderia fazer algo assim? Anos na estrada, sozinho, como ele se bancava? Foram muitas perguntas que surgiram em minha cabeça, mas aquela possibilidade de dar a volta ao mundo numa bicicleta havia me instigado. Comecei a pesquisar e aos poucos fui descobrindo todo um universo das longas viagens de bike, mais antigo na Europa, mas no Brasil apenas engatinhando na época.

O próximo passo foi unir esse gosto por pedalar e ir cada vez mais longe à vontade e curiosidade de conhecer o mundo, comecei então a rabiscar um projeto que pudesse me ajudar a cair na estrada e realizar a minha volta ao mundo. Assim nasceu o Pedal na Estrada, um projeto no qual eu juntei uma grande viagem de bicicleta a uma ousada iniciativa educacional, com a qual eu me propunha a levar informações sobre história, geografia e curiosidades das culturas que eu visitava para os estudantes brasileiros. Após 10 meses de muito trabalho o projeto saiu do papel e foi a estrada, isso era abril de 2006 e eu tinha 24 anos.

Conte-nos um pouco da sua viagem, os prazeres, as dificuldades, enfim como foi viajar apenas com uma bicicleta.

A palavra que melhor define viajar de bicicleta é liberdade. Isto talvez defina o maior dos prazeres deste tipo de viagem, esta liberdade de sentir o vento na cara, de poder ir para qualquer direção, de acampar sob um céu estrelado, de estar integrado com o local onde se está e ao mesmo tempo não estar preso a ele é algo até difícil de colocar em palavras e talvez explique a paixão que algumas pessoas desenvolvem pelo cicloturismo. No começo da viagem os prazeres costumam ser maiores que as dificuldades, isso não é muito diferentes de outros começos comuns aos seres humanos, seja o começo de um novo trabalho, de um novo relacionamento, tudo sempre parece ótimo e os problemas são minimizados ou marginalizados. Com o tempo isso tende a mudar, a balança se equilibra ou mesmo pende para o outro lado, os prazeres se tornam iguais e repetitivos – deixando de ser compensadores – e as dificuldades parecem ganhar peso. Quase tudo na vida é assim, com uma viagem de bicicleta não é diferente.

O começo é muita empolgação, tudo é novo e diferente, a vida nômade apresenta desafios, mas ao mesmo tempo traz enormes recompensas e aprendizados, estar só na estrada tem seus pontos negativos, mas ao mesmo tempo possibilita que se conheça centenas de pessoas pelo caminho. Enfim, só alegria. Com o tempo chega o cansaço, não apenas físico, mas especialmente emocional e mental. O cansaço emocional ocorre pela solidão que corrói aos poucos e não encontra mais satisfação em tantos contatos superficiais com as pessoas. O viajante vai se endurecendo aos poucos. O cansaço mental se dá pela incapacidade de digerir tanta informação nova num ritmo tão intenso. Quando estes sintomas começam a aparecer é sinal que é hora de parar de pedalar um pouco e ficar num só lugar para se recompor e só então voltar à estrada.

Fora estes aspectos característicos de uma longa viagem solitária, os outros prazeres e dificuldades são muito parecidos com os enfrentados no cotidiano de qualquer pessoa: conhecer um lugar novo e bonito, lidar com suas próprias limitações, provar uma comida deliciosa, se esquivar uma pessoa que quer te passar a perna, ter problemas com a burocracia local, experimentar uma sensação de vitória por ter superado um desafio, conviver com a sensação de impotência diante de tantos problemas, enfim, coisas que todos vivem, mas que numa viagem com esta apenas ganham um intensidade maior.

Arthur Simões

A partir do seu diário de viagem, você elaborou o livro “O mundo ao lado”. Como foi a decisão de escrevê-lo?

O livro “O mundo ao lado” não é bem baseado nos diários que eu escrevi durante a viagem, apesar de ele se valer deles para trazer lembranças mais vívidas ao livro, já que a memória é quase sempre traiçoeira e falha. Os diários surgiram justamente desta noção de que se aquilo não fosse registrado de uma maneira minimamente organizada e coerente, certamente boa parte dos acontecimentos da viagem se perderia naquele mar de informações que apenas crescia com o passar dos quilômetros. Já o livro teve uma motivação diferente, eu queria aproveitar o fim da viagem para então digerir todas aquelas informações e experiências e criar uma síntese, sincera, realista e reflexiva, do que havia sido aquela viagem, com seus diversos pontos positivos e negativos. Assim posso dizer que o ponto em comum entre os diários e o livro é apenas a volta ao mundo de bicicleta, pois tanto a narrativa quanto objetivo são completamente diferentes.

Como foi a recepção do público ao livro?

A recepção foi muito boa, tanto entre os cicloturistas que haviam acompanhando minha viagem quanto para o público geral, menos interessado na bicicleta e mais ligado à experiência proporcionada pela leitura. Quis fugir de um livro de nicho, que ficasse restrito aos círculos do ciclismo, assim tirei o foco da bicicleta e o coloquei na viagem em si, nas dificuldades, superações e surpresas que ocorreram nestes 3 anos de estrada, pelo fato desse tipo de experiência conseguir encontrar um eco em quase todas as pessoas, ciclistas ou não. Acho que funcionou, mesmo assim acredito que a maior parte dos leitores são pessoas ligadas a alguma vertente do ciclismo, meio em que o livro ficou mais conhecido.

Escrevi um livro realista, que tinha como um dos objetivos mostrar os desafios e dificuldades de uma viagem como essa, para isso desmontei conceitos românticos e, por vezes, piegas, que circundam viagens deste tipo. Aqueles que cicloturistas que esperavam algo mais poético e apaixonado, compatível com esse romantismo, tiveram uma surpresa, o que era o meu objetivo.

Quais as maiores dificuldades que você encontrou quando resolveu transformar o diário em livro?

Escrever o livro não teve nada a ver com os diários. Eu apenas usei trechos dos diários no livro, nada mais. Neste sentido, a maior dificuldade de escrever o livro foi “refazer” toda a viagem, para então digeri-la e somente então regurgitar o livro. Foi um processo profundo e complexo, no qual eu precisei me isolar por alguns dias, ficando longe de internet e telefone inclusive, para conseguir esta imersão que eu queria. Acredito que este seja um processo necessário, apesar de difícil, para se conseguir dar profundidade à história que se quer contar. É preciso vivê-la e revivê-la para se extrair a mensagem que se quer passar com aquilo, caso contrário não vejo sentido em escrever um livro para apenas contar o que aconteceu. Para isso os diários bastariam.

Neste dias de isolamento refiz toda a viagem em minha mente. Ao final do livro estava tão exausto quanto após a viagem real.

Apesar de um mercado ainda restrito, vemos que anualmente são lançados centenas de livros esportivos, muitos de viagens, aventuras. Afinal, livro que tenha aventuras como tema alcança uma boa vendagem?

Acredito que apesar de ser um mercado crescente no Brasil, um país em que a população começou a viajar mais nos últimos anos, os livros esportivos e de aventura ainda estão em uma categoria editorial que não alcança grande vendagem, pelo menos se comparados a títulos com grandes tiragens e retornos expressivos.

Livros esportivos, de viagem ou de aventura – aqui é importante diferenciar a aventura real (não-ficção) da categoria “aventura” da ficção – são livros autênticos, nos quais muitas das vezes o autor está escrevendo mais para registrar e compartilhar a história dele que para entreter e envolver os outros. Os autores são atletas, aventureiros, exploradores, na maioria das vezes, e não escritores ou jornalistas cujo foco é vender livro. São livros que encontram leitores, mas quando comparados aos livros que recebem mais atenção das editoras ainda estão longe de conseguir uma vendagem expressiva.

Isso só não é regra quando o autor é famoso ou teve grande visibilidade por conta de seu feito. Ainda que o livro não seja bom, a editora investe mais em produção e divulgação e, consequentemente, tem maiores retornos.

Não acredito que isso vá mudar tão cedo, ainda mais com a crise atual do mercado editorial.

Algum novo livro previsto?

Mesmo com um gosto enorme pela literatura e não descartando novos trabalhos no futuro, atualmente não tenho nenhum título em produção. Talvez no futuro, com novas viagens e novos destinos, surjam novas páginas.

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