Entrevista com Carla Barbosa

Carla BarbosaNascida  no interior de Minas Gerais, Carla Barbosa estudou Jornalismo e atuou na área por mais de quatro anos, elaborando reportagens sobre temas cotidianos para o Jornal Gazeta do Vale. Em seguida se mudou para Santa Rita do Sapucaí, onde começou a trabalhar com Marketing para uma empresa de Tecnologia, a Leucotron. Ficou dois anos nessa área, o que a levou a fazer uma pós-graduação em Comunicação e Marketing em mídias digitais na PUC – Poços de Caldas. Mudou novamente de cidade. Dessa vez para Itajubá, onde trabalha atualmente como analista de conteúdo para uma empresa de marketing digital, a Smarkio.

Em paralelo a todos os empregos formais, sempre escreveu em blogs, revistas, sites, especialmente os voltados para esporte, com ênfase, é claro, para o futebol. Um dos veículos mais importantes nesse sentido foi o Torcedores.com, onde aprendeu muito e conseguiu bastante visibilidade com os artigos.

Como e quando o futebol entrou em sua vida?

Venho de uma família de descendência italiana e meu avô, tios, pai, são palmeirenses. Eu sempre disse que torcia para o Palmeiras, mas, comecei de fato a acompanhar, quando caímos pela primeira vez para a segunda divisão. Daí em diante passei a assistir jogos, programas esportivos, discutir, comprar camisa e ir ao estádio…

Existe preconceito contra mulher escrevendo livro sobre futebol?

Como tudo que envolve mulher e futebol, eu acredito que sim, mas, no meu caso, é velado. Digo isso porque nunca sofri nenhuma discriminação descarada. Noto resistência das pessoas em acreditar que eu de fato pesquisei e que sei do que estou falando. Mas, sempre teve esse pé atrás. As pessoas assustam quando digo que vou ao estádio sozinha, escuto jogo no rádio, imagina só quando falo que escrevi um livro de futebol. Acho que essa situação se agrava porque tenho incríveis 1,50 de altura. (rsrs)

Por que você decidiu escrever o livro “Palmeiras – O Brasil de coração italiano“?

No segundo ano da faculdade resolvi que o trabalho de conclusão do curso, seria um livro e posteriormente decidi que seria do Palmeiras. Não conhecia ninguém no clube, então comecei a mandar e-mails, até que o primeiro respondeu e me abriu as portas. Foi o Fábio Finelli que na época era assessor do Palmeiras. Foram dois anos de pesquisas no clube, com funcionários, historiadores, jornalistas, assessores, ex-jogadores etc. Entre eles, pessoas incríveis como Mauro Beting, Ademir da Guia, Fernando Galuppo, e muitos outros.

Ainda não tinha um tema definido, então comprei uma série de livros e decidi que o que não tivesse em nenhum deles, eu escreveria. Foi assim que cheguei no tema da imigração italiana no Brasil. Como pano de fundo para a trajetória dos italianos, usei o jogo em que o Palmeiras representou a seleção brasileira contra o Uruguai na inauguração do Mineirão em 65.

A ideia era mostrar as duas faces de uma mesma moeda. Eles chegaram no Brasil como substitutos da mão de obra escrava, batalharam na lavoura e no jogo em questão, um time fundado por eles, representou o país em campo, e venceu por 3 x 1.

Você contou com o apoio do clube?

Durante as pesquisas e entrevistas, o clube sempre esteve de portas abertas. Nunca tive nenhum problema com relação a isso. Depois de finalizado, tivemos algumas conversas sobre lançá-lo e houve interesse do Palmeiras, porém, se passaram quatro anos e não conseguimos viabilizar com uma editora. Lançar pelo clube, envolve questões burocráticas, selo, etc. Foi aí que uma amiga, a Lu Castro me apresentou a editora Multifoco que tem o selo Drible de Letra voltado para o esporte. Rapidamente fechamos uma parceria e lançamos de forma independente.

Qual a maior dificuldade que você encontrou quando estava escrevendo?

Sinceramente, não encaro como “dificuldades” porque foi apaixonante do começo ao fim. A realização de um sonho e também uma meta de vida. Sair do interior de Minas, pegar metrô sozinha pela primeira vez em São Paulo, encontrar pessoas que nunca vi na vida, foram tarefas bem difíceis, mas, fundamentais para o meu crescimento pessoal e profissional. Eu ficava perdida em São Paulo, pegava linha errada, cada dia pedia pra dormir na casa de algum amigo ou parente, mas, no fim era engraçado.

Bom, se tiver que apontar algo que me barrou, acredito que seja a divulgação. O meio do futebol é muito disputado e cheio de feras. É bem difícil uma completa desconhecida chegar e querer emplacar um livro. Ainda mais, independente. Ralei e ralo até hoje pra tornar o livro conhecido.

Enquanto isso você vê jornalistas famosos lançando com facilidade um atrás do outro. Com todo seu mérito claro, mas, ter nome torna tudo menos penoso.

Como foi a recepção do público ao livro?

Muito positiva. Apesar dessa dificuldade em chegar até as pessoas, consegui algumas coisinhas que com certeza me ajudaram e muito. Mauro Beting divulgou o lançamento, fez um vídeo, escreveu a contracapa, consegui também que o lançamento fosse na loja do Pacaembu, o que dá uma grande notoriedade, então cheguei a pessoas desconhecidas. Tive também o apoio incondicional de amigos e família, que compartilham incansavelmente e fazem propaganda. Tive alguns feedbacks super positivos, de pessoas que não me conhecem, isso é muitíssimo gratificante. Claro que a opinião das pessoas próximas também conta muito, porque eles são a razão por eu ter seguido em frente. Mas, saber que gente que não sabe quem eu sou, leu e curtiu, é bom demais!

Como você vê o mercado editorial brasileiro para os livros esportivos?

Acho que a leitura de um modo geral, infelizmente não é nosso forte. E fazer um livro tão focado, acaba barrando bastante gente. Tem os cases de sucesso, por exemplo, o do Mauro Beting sobre o goleiro Marcos. Mas, aí não precisamos nem entrar em discussão. São dois monstros e não podia ser diferente.

É diferente de escrever um romance em que você chega a homem, mulher, adulto, adolescente, criança. Falar de esporte restringe muito. Por isso quis fazer o meu um pouco diferente. Apesar de ser sobre imigração, ter com conteúdo histórico, etc, optei por romantizar, justamente pensando em abranger um público maior. O livro é escrito em primeira pessoa, como se uma criança (no caso meu avô), viesse da Itália com a família, trabalhasse nas lavoras de café e participasse da fundação do Palestra Itália. Espero que conseguido.

Você acha importante uma aproximação maior entre leitores e autores?

Com certeza! Eu sou desconhecida e mesmo assim, o carinho que recebo das pessoas é tão sensacional. As pessoas no dia do lançamento queriam tirar fotos e quando você aceita, a pessoa fica agradecia, feliz… O mesmo acontece quando recebo mensagens inbox ou e-mail. Mal sabem que o prazer é todinho meu e que fico toda boba com esse reconhecimento.

Algum novo livro sendo preparado?

Tenho a ideia para um próximo. Gostaria de continuar a historia desse. No caso até 1965 era meu avô contando e quem sabe daí em diante pudesse ser contata pela neta dele. Mas, nada sendo elaborado ainda…

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