Entrevista com Carlos Fernando Schinner

Carlos Fernando SchinnerCarlos Fernando Schinner nasceu em Santos e desde pequeno se interessou pelo esporte e pelo microfone. Com 16 anos, já trabalhava na imprensa de sua cidade natal. A partir de então começou uma trajetória vitoriosa que inclui passagens pelas TVs Cultura, Record, ESPN, SporTV, Bandeirantes e Bandsports, e por várias emissoras de rádio como Globo, CBN, Gazeta e Record. Torcedor fanático do Santos, Carlos Fernando também é professor. Ministrou no Senac, em 2000, o primeiro curso de narração esportiva do Brasil.

Conte-nos um pouco da sua trajetória profissional.

Sou narrador esportivo de rádio e televisão, jornalista, radialista, publicitário, escritor e coach de comunicação. Trabalho desde 2002 nas TVs Band e Bandsports. Já cobri cinco Jogos Olímpicos (Sidney/2000, Atenas/2004, Pequim/2008, Londres/2012 e Rio/2016), além de seis Copas do Mundo de futebol (Estados Unidos/1994, França/1998, Coreia-Japão/2002, Alemanha/2006, África do Sul/2010 e Brasil/2014).

Comecei a trabalhar em rádio em 1979, aos 16 anos, na Rádio Cultura de Santos. Desde os 10 anos já sabia o que eu seria: narrador de futebol! Minha inspiração foi o revolucionário Osmar Santos, que ouvi desde sua primeira transmissão em São Paulo, pela Jovem Pan.

Ainda em Santos trabalhei nas rádios A Tribuna AM, A Tribuna FM, Atlântica e Rádio Clube. Em 1982 mudei-me para São Paulo, e fui trabalhar na Rádio Gazeta, a convite de Pedro Luiz Paolielo, considerado o maior locutor esportivo até os anos 70. Na equipe trabalhavam Paulo Soares e João Carlos Albuquerque (ambos da ESPN); Paulo Roberto Martins (Transamérica e TV Band); Luis Roberto de Mucio (TV Globo), Osvaldo Pascoal (Fox Sports), entre outros. Em 1987 as equipes da Gazeta e da Record se uniram, quando eu pude realizar o meu sonho de trabalhar com Osmar Santos, até o terrível acidente automobilístico que o vitimou em dezembro de 1994.

Em 1989 estreei na TV Cultura, época de ouro, dos programas Vitória, Roda Viva, Cartão Verde, Castelo Ratimbum, e tantas produções premiadas. Lá transmiti a inesquecível conquista do São Paulo FC da Copa Libertadores em 1992. Dois anos depois fui contratado pelo SporTV, época que os canais a cabo 100% esportivos estrearam. Na equipe estavam os comentaristas Mauro Beting e (o saudoso) Dr. Sócrates, e os repórteres José Calil e Acaz Fellegger. Quatro anos depois transferi-me para a ESPN Brasil, onde fiquei até 2002, quando fui contratado pelo Grupo Bandeirantes de Comunicação (onde estou até hoje).

Paralelamente à TV, fiz parte em 1991 da primeira equipe de âncoras da Rádio CBN – comandada por Heródoto Barbeiro –, que implantou o conceito no Brasil, fazendo rádio jornalismo 24 horas por dia. Em 1996 fui para a Rádio Globo onde criei o programa Agito Geral, além de transmitir futebol na equipe comandada por Oscar Ulisses.

No ano 2000, convidado pelo Senac São Paulo, criei o primeiro curso de narração esportiva em rádio, TV e web do país, de onde surgiu o livro Manual dos Locutores Esportivos pela editora Panda Books (2004).

Anos mais tarde tornei-me consultor pedagógico do Senac-SP. Em 2010 ajudei a implantar a equipe esportiva da Rádio Bandnews FM, um projeto ousado voltado para o público jovem e também feminino. Sucesso total. Dois anos depois, tornei-me diretor de conteúdo da Rádio Globo São Paulo.

Quais livros você já publicou?

Além do Manual dos Locutores Esportivos também sou autor das biografias Rui Viotti – histórias do rádio, da TV e do esporte (Companhia dos Livros/ 2010); e Coutinho – o gênio da área (Realejo Livros/2012). O e-book do Manual dos Locutores Esportivos (Panda Books) foi lançado em julho de 2015.

Coutinho sempre foi muito reservado. Como foi fazer sua biografia?

Considero um grande desafio profissional, e também enorme prestigio a mim concedido pelo craque, parceiro do Rei. No início, Coutinho via o projeto com reservas, até porque, alguns jornalistas e escritores haviam prometido escrever sua história, e todos não cumpriram com a palavra. Porém eu fui sempre muito claro e transparente com relação ao projeto, e após a terceira entrevista, o craque já se sentia seguro e à vontade. Foram quase 15 encontros com o jogador, muitas pesquisas em todas as mídias, e várias entrevistas pessoais com os mais diversos personagens da vida do Gênio da Área.

É verdade que por se parecer muito com Pelé, Coutinho teria passado a usar uma fita branca em um dos braços?

Não nos braços, mas nos punhos. A ideia foi do narrador Ernani Franco da Rádio Atlântica de Santos, pois a iluminação da Vila Belmiro era muito precária, e, os dois negros usando uniforme branco – além de serem muito rápidos e trocarem constantemente de posições, confundiam mesmo. O craque, porém, contesta, e diz que muitas vezes “abria os pulsos”, como se dizia na época – fazendo exercícios, e por isso vivia com ataduras nos punhos.

Você esperava que o livro fizesse tanto sucesso?

Quando escrevi o livro só pensava em eternizar a vida do craque, pois todos só falavam de Pelé. Também quis homenagear o Santos Futebol Clube – levantando estatísticas que até então eram muito precárias e difíceis de se pesquisar. Lembre-se que Google e Wikipédia são relativamente recentes, e há dez anos a internet não era como hoje. Também quis resgatar um pouco a história da minha cidade – Santos. Tá tudo lá.

Qual a maior dificuldade que você encontrou quando estava escrevendo?

Foram duas: a dificuldade nas pesquisas – como disse anteriormente, e conseguir um espaço na agenda do Pelé. Já estive com o Rei algumas vezes ao longo de meus 37 anos de profissão. Porém, na época, ele estava viajando toda semana para o exterior. Cansei de ligar para a secretária dele, que sempre me atendeu com muita paciência. Até o dia em que, ao ligar, ela me disse que ele “estava me esperando na rua tal, número tal, em Moema, num estúdio de gravação”. Fui correndo pra lá, e quando cheguei, ele abriu um sorrisão e disse que estava gravando um CD com músicas. Então, me levou para um estúdio gigante que cabia uma orquestra, fechou a porta pesada e disse: “pra falar do meu irmão Coutinho eu posso ficar o tempo que você quiser”. E avisou a secretária para ninguém nos atrapalhar. E por último escreveu uma carta de próprio punho, que está publicada lá no livro.

O seu outro livro, a biografia do Rui Viotti, também foi bem recebida pelo público. Por que você decidiu escrever sobre o Ruy?

É o meu livro preferido, apesar de ter sérios problemas de revisão. A editora, aliás, nem existe mais. Conhecia Rui Viotti de nome, e sabia de sua extraordinária história ligada ao rádio, à TV e ao esporte. Um fenômeno de profissional, ele que foi o substituto de Ary Barroso na Tupi, lançou diversos programas (inclusive na Globo – como o Esporte Espetacular – onde foi diretor de esportes), além de ter sido o único a narrar os três títulos de Gustavo Kuerten em Roland Garros. Gravei horas e horas de bate papo com ele, e, às vésperas de enviar os originais à editora, ele faleceu. Iria completar 80 anos.

Você utiliza algum método específico para escrever?

Sinceramente ainda não me sinto um escritor. Cheguei a fazer um curso com o maior biógrafo do país – Ruy Castro – que me ensinou vários truques para manter a atenção do leitor. E me ensinou como é difícil administrar as famílias de biografados longe do centro da história (a excelente biografia sobre Garrincha é um ótimo exemplo). Mas não me vejo com talento suficiente para isso. Meu negócio ainda é o microfone (rsss).

Como você vê o mercado editorial brasileiro para os livros esportivos?

Demorou muito para ganhar corpo. Tratei durante muitos anos dessa questão com o escritor e editor André Ribeiro (autor da biografia de Telê Santana, de Leônidas da Silva, e criador do site Literatura na Arquibancada), numa época que havia poucos livros, que contávamos nos dedos de duas mãos, como Mário Filho, Nelson Rodrigues, Coelho Neto, De Vaney e depois José Miguel Wisnik, Odir Cunha, Celso Unzelte, Tom Cardoso, do próprio Ruy Castro, e de mais alguns poucos.

Algum novo livro previsto para 2017?

Tenho um projeto ainda engavetado, mas por enquanto é segredo. (rsss)

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