Entrevista com Ernani Buchmann

Ernani BuchmannNascido em Joinville,  Ernai Buchmann se mudou com a família para Recife e Rio de Janeiro até estabelecer-se em Curitiba. Iniciou os estudos em advocacia na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Pernambuco e formou-se na Universidade Federal do Paraná. No Rio de Janeiro, começou a carreira de publicitário e em Curitiba, a de jornalista.

Na vida pública, exerceu cargos na Fundação Cultural de Curitiba, na Fundação Teatro Guaíra e no Museu de Arte Contemporânea do Paraná, além de vice-presidente da Associação Comercial do Paraná e membro do Instituto dos Advogados do Paraná, entre outras instituições.

Foi presidente do Paraná Clube no biênio 1996/98. Também participou de várias campanhas políticas como assessor e coordenador. Autor de diversos livros, é presidente da Academia Paranaense de Letras.

Fale-nos um pouco da sua trajetória profissional.

A vocação para escrever é precoce, vem dos tempos de colégio. Em 1968, quando eu fazia o segundo da faculdade de Direito em Recife, viajei com meu pai a Garanhuns – e lá ele comprou e me deu uma pequena máquina de escrever, marca Olivetti. “Se você quer ser escritor, estou te dando a ferramenta”, comentou. Ainda tenho aquela velha parceira, já aposentada há muitos anos. De volta a Curitiba, trabalhei escrevendo petições em escritório de advocacia, fui para o jornalismo esportivo e, no Rio de Janeiro, algum tempo depois, iniciei na publicidade, Fiz carreira em agências de propaganda, no Rio e no Paraná, trabalhei em diversas cidades, mas jamais deixei o jornalismo, produzindo programas de rádio, escrevendo crônicas para revistas e jornais e participando de programas de TV e rádio.

Abandonei a publicidade algumas vezes, para ser diretor da Fundação Cultural e depois para assumir a presidência do Paraná Clube. Hoje sou consultor e gestor de comunicação, trabalhando em diversas entidades, como Fecomércio PR, OAB PR, Amatra IX e Apajufe. A Buchmann Gestão de Comunicação atende também clientes da inciativa privada. Sou presidente da Câmara Nacional de Esportes, empresa de mediação de conflitos na área esportiva, e da Academia Paranaense de Letras.

Você transita por várias áreas, de comentarista esportivo a membro da Academia Paranaense de Letras, de presidente de um clube de futebol a assessor de campanhas políticas. Como conciliar tudo isso?

Sou hiperativo, não sei o que é inatividade. Desta maneira, mantenho interesse em inúmeras áreas. Em agosto próximo completo 48 anos do primeiro emprego. Durante todo este tempo, aprendi a escrever em diversos códigos: reportagens, anúncios, petições, crônicas, artigos, discursos, roteiros de cinema e de vídeo, e ficção. Assim, não é complicado mudar de chip ou trocar o canal interno da mente por outro, principalmente quando você está antenado em tudo o que acontece, das traduções de Ulysses, de James Joyce, que não param de surgir no mundo inteiro, ao universo do xadrez, outra das minhas paixões.

Como começou a sua paixão pelos esportes, em especial pelo futebol?

Na Copa do Mundo de 1950 eu ainda não tinha dois anos, mas já chutava bola – segundo minha mãe, foi o que fiz durante todo o jogo Brasil x Uruguai. Meu pai me levava ao estádio desde muito cedo. Também comprava jornais e revistas esportivas, cujas eu devorava. Com facilidade para gravar fatos, jogos e escalações, fui acumulando certa bagagem. Até hoje sou capaz de citar de memória todos os atletas da seleção campeã do mundo em 1958, com apelido, nome e sobrenome.

Você morou em várias cidades brasileiras, muitas delas com enormes diferenças culturais e até do contato diário com as pessoas. Isso, de alguma forma, influenciou sua forma de escrever?

Certa vez um amigo meu, Bira Menezes, mossoroense radicado em Curitiba, escreveu um texto referente a um título que me outorgaram no mundo publicitário. Lá ele dizia que eu era especialista em Brasil. Não sou especialista, sou curioso e apaixonado pelas nuances regionais brasileiras. Nasci no sul, vivi no sudeste e no nordeste, trabalhei em Roraima, tive escritório em Brasília por uns dez anos. Meus filhos tem raízes em Minas Gerais e a Tânia, com quem vivo há quase 25 anos, é gaúcha. Alguma coisa eu tinha de aprender. Logo, sou um pouco de tudo isso.

Detalhe um pouco os seus livros esportivos.

Meu primeiro livrinho, “Cidades e Chuteiras”, era uma reunião de crônicas. Ganhou destaque pelo projeto gráfico de Miran. Ali tinham textos sobre as minhas cidades e sobre futebol. Virou uma raridade, que às vezes é encontrada na internet a preços em torno de R$ 100,00. Depois escrevi o “Livro do Truco”, com uma pesquisa sobre a origem do jogo e as citações que recebeu na literatura brasileira e latino-americana. “O Ponta Perna de Pau” reúne minhas crônicas sobre futebol: é um livro despretensioso, de pequena tiragem.

As duas obras de maior fôlego são “Quando o Futebol Andava de Trem“, pesquisa histórica sobre os times de futebol surgidos das ferrovias no país, e “A Camisa de Ouro”, com textos abordando a participação da seleção brasileira em todos os mundiais, de 1930 a 2002, ilustrado com fotos de Tânia Buchmann, Charly Techio e Denise Bellani, que reproduzem os ambientes relatados nos textos. É uma obra de colecionador, que não foi colocada à venda, mas distribuída como brinde corporativo.

Os três que abordam o futebol fazem parte do acervo do Museu do Futebol. “Quando o Futebol Andava de Trem” também consta da biblioteca da Brown University, nos Estados Unidos.

Um dos seus mais badalados livros é “Quando o futebol andava de trem”. Nele os dados são apresentados de forma natural, com sabor de crônica. Como surgiu a ideia de escrevê-lo?

Em 1985 propus à Rede Ferroviária Federal que fizesse um calendário em que cada mês fosse dedicado a um time ferroviário. Na época, listei 12 deles, entre os quais os Ferroviários de Curitiba, de União da Vitória, de Tubarão, de Maceió, de Recife, de Fortaleza; a Ferroviária de Araraquara, a Desportiva Ferroviária de Vitória, Nacional de São Paulo, Estrada de Ferro de Sorocaba e Peri Ferroviário de Mafra. Não se interessaram. Quinze anos depois, já na era internet, um redator publicitário sugeriu que eu pesquisasse na rede a existência desses times e de outros. Encontrei mais de 100. Passei a procurar contatos, a receber informações, a viajar para buscar dados (a Tânia fotografando tudo), a resgatar escudos e o que mais houvesse. Depois fui obrigado a encontrar uma narrativa que ligasse todos eles. Imaginei uma viagem de trem, passando por todas as cidades que tiveram times criados pelos ferroviários, começando por rio Grande e terminado no Rio Madeira, em Rondônia. O livro foi lançado pela Imprensa Oficial do Paraná na Feira do Livro em Porto Alegre, em 2002, e esgotou o estoque em 24 horas. Dois anos depois a Imprensa Oficial publicou uma segunda edição, também de 1500 exemplares, igualmente esgotada. Custa um bom dinheiro, mas sempre existe um sebo aqui ou ali com um exemplar à venda.

Sobre o estilo, nada a acrescentar: é daquele jeito assim que gosto de escrever. Celso Unzelte, da ESPN, colocou o livro entre as melhores obras de futebol que já tinha lido, ao lado de autores como Nelson Rodrigues, Mário Filho, Ruy Castro e Juca Kfoury. Jamais havia recebido elogio de tal magnitude.

O objetivo do site Livros Esportivos é aproximar os autores do público, mostrando que, na maioria das vezes, quem escreve os livros são pessoas comuns, que possuem outra profissão e publicam livros por amor ao esporte. Você acha importante dar mais ênfase aos autores?

O autor de livros esportivos é mal avaliado. É verdade que existem muitas obras escritas por quem não é escritor, o que rebaixa a qualidade final. Mas existem autores de grande valor, alguns dos quais citei acima. Aqui no Paraná, o jornalista Carneiro Neto é uma referência, tanto que foi eleito para a Academia Paranaense de Letras. É preciso que se dê destaque a todos os que se comprometem com o tema. De outra forma, as histórias vão se perder na linha de fundo da memória dos personagens. O site pode ajudar muito nesta imensa tarefa.

Algum novo livro esportivo em andamento?

Hoje estou envolvido com outros temas, além dos esportivos. Também prometi a mim mesmo jamais voltar a fazer livro baseado em pesquisa histórica, pela trabalheira que dá. Já não tenho tempo para isso. Trabalho 12 horas por dia em diversos lugares e não pretendo parar. Tenho um livro de ficção parado há cinco anos no fim da primeira parte. Pretendo dar um jeito de continuá-lo, mas não sei quando. As exigências não param de surgir e preciso sobreviver.

Obrigado pela oportunidade de dar este depoimento. Sucesso para vocês.

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