Entrevista com Igor Serrano

Igor SerranoAdvogado, formado pelo Centro Universitário de Brasília (UniCeub) e pós-graduado em Processo Civil pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Igor Serrano foi estagiário do Supremo Tribunal Federal e atualmente trabalha junto à Procuradoria do Município do Rio de Janeiro. Desde criança é apaixonado pelo futebol.

Quais os seus primeiros passos de sua relação com o esporte e como surgiu a ideia de escrever livros?

Desde pequeno sempre fui um apaixonado por futebol. Fazia escolinha de futsal e, tal como a maioria dos jovens brasileiros, tinha o sonho de me tornar atleta profissional. Cheguei a fazer alguns testes em clubes do Rio de Janeiro, mas não tinha habilidade suficiente nem os contatos certos (é duro ver muitos atletas profissionais sem habilidade mínima para sequer serem escolhidos no time da pelada, mas que certamente tiveram os “padrinhos” certos). Rs

Meu também pai sempre viajava muito a trabalho e a cada lugar novo que ele ia, eu sempre pedia um souvenir (geralmente uma camisa) de um clube local. Foi aí também que se iniciou uma paixão minha, que é o colecionismo de camisas de futebol.

Sou vascaíno por influência do meu saudoso avô, que foi também quem deu a minha primeira camisa oficial do clube (hoje adequadamente emoldurada), e sempre tive gosto pela leitura e certa habilidade na escrita. Na época do colégio e depois na faculdade, nunca tive dificuldade nessa área.

Em 2013, após retornar de uma partida do Vasco no Maracanã, comecei a escrever sobre o jogo que tinha acabado de assistir. Repeti a dose na ida seguinte ao estádio. Saíram duas crônicas. Mostrei a alguns amigos, que tiveram reação positiva e começaram a me incentivar a escrever mais e publicar. Surgiu então a ideia da publicação.

Determinei a temática por jogos do Vasco com o enfoque no lado torcedor/arquibancada dos últimos anos. Então estabeleci 2013 como o marco temporal final. Faltava o inicial. Daí numa rápida retrospectiva mental, lembrei do Vasco e Lanús pela Copa Sul-Americana de 2007 (o Vasco perdeu o jogo de ida na Argentina por 2 x 0 e conseguiu reverter a desvantagem em São Januário ao vencer por 3 x 0). Estava escolhido então o marco temporal inicial. Assim surgiu “A turma é boa, é mesmo da fuzarca! – Relatos de partidas e curiosidades do Club de Regatas Vasco da Gama sob a ótima de um vascaíno apaixonado (2007 a 2013)”, meu primeiro livro, lançado pela Editora Multifoco em 2015, onde conto sobre o Vasco de 2007 a 2013 por meio de dez partidas que escolhi deste período. O livro foi também uma forma de homenagear a memória do meu avô.

Pouco depois do lançamento, uma amiga veio com a notícia de que o chefe dela estava procurando um vascaíno para o blog sobre futebol carioca que ele mantinha. Me interessei e recebi o convite do Carlos A. Ferreira para me juntar ao time do Blogols!, como colunista vascaíno, onde permaneço até hoje.

No final daquele ano, fui o convidado do meu programa favorito de rádio, o Pop Bola (atualmente na Rádio Globo RJ), para falar sobre o “A turma é boa, é mesmo da fuzarca”. Foi uma experiência inesquecível ser recebido pelos caras que você tem como ídolos do modelo humor + futebol para falar de algo que você despretensiosamente fez. Foi muito gratificante. Tanto que, após a ida ao programa, entrei em contato com o Alexandre Araújo (jornalista e âncora do programa) e pedi para retribuir de alguma forma. Pintou a ideia de escrever uma coluna semanal sobre livros de futebol para o site deles e aí surgiu a “Na prancheta do Serrano”, depois abreviada para “Na prancheta”. Lá, desde dezembro de 2015, toda semana indico algum livro bacana sobre futebol, inclusive com a informação de onde pode ser encontrado e média de preço.

Em 2016, recebi o convite dos sócios da Multifoco para me tornar editor de futebol da Editora. Criei o Selo Drible de Letra, voltado exclusivamente para o esporte bretão e que busca fugir do lugar comum da literatura futebolística (“almanaques”, “maiores jogos”, “maiores craques”, etc…). Já lançamos quatro obras até o momento: “Da queda ao bi – A trajetória do Vasco em crônicas (2015/2016)”do André Garone, “Da rebelião à glória – O Fluminense e a conquista da Primeira Liga” do Rodrigo Barros, “Palmeiras – O Brasil de coração italiano” da Carla Barbosa e “Arena pra quem? O ‘legado’ que o Corinthians e a Copa do Mundo de 2014 deixaram para o bairro de Itaquera” do Carlos Siqueira. Teremos novidades nos próximos meses pelo selo, dentre eles, o meu segundo livro (sobre o título vascaíno da Copa do Brasil 2011) e outro sobre o olhar da imprensa paulista acerca do futebol feminino na época da ditadura de uma jovem mestra em História Social da USP.

Por que o futebol desperta tanto interesse e exerce tanta influência no dia a dia das pessoas?

O futebol é um esporte fascinante por ter muitos ingredientes que toda pessoa tem contato em sua vida. Drama, superação, alegria, derrota, vitória, decepção, violência, companheirismo, arte, prazer… Além de ser a válvula de escape predileta das mazelas diárias do brasileiro, o que acaba sendo bom (uma ou duas vezes por semana durante noventa minutos esquece-se dos problemas) e ruim (violência: leva-se para o esporte questões que não são originariamente dele).

É um espelho da nossa sociedade e o recente episódio do Rodrigo Caio do São Paulo mostra bem isso. O que deveria ser comum, o jeito certo de se agir, é tratado como um episódio alienígena. Outra mostra é a cultura do jogador brasileiro com a simulação de faltas. Infelizmente, vemos no Brasil diariamente maus exemplos de que para vencer (no esporte ou na vida) vale tudo. E isso equivocadamente entra na cabeça do atleta. Cavar uma falta ou simular uma agressão no rosto quando se toma um esbarrão natural no peito, é tratado como natural/algo normal, a tal “malandragem/o jeitinho”.

Por outro lado, pelo futebol também conseguimos ver coisas bacanas como a inserção social de diversos jovens que, pela ineficiência do Estado brasileiro (seja pela dimensão continental do país, seja pela má-fé e/ou incompetência dos nossos governantes), têm no esporte uma chance de evitar caminhos tortuosos.

Por fim, o futebol é o único esporte em que, clichês à parte, nem sempre o melhor vence. Isso não é possível no vôlei ou no basquete, por exemplo. Quando que você vai ver na NBA um episódio mágico como o do Leicester na conquista da Premier League?! Impossível.

Nos próximas dias você vai lançar o seu segundo livro. Fale um pouco sobre ele.

“Copa do Brasil 2011 – Norte e sul deste país!” será lançado no próximo dia 16/05, é mais documental, uma forma de homenagear a equipe do Vasco que ficou conhecida como o Trem-Bala da Colina, responsável por tirar o clube de uma fila de oito anos sem conquistas de primeira divisão com o título inédito da Copa do Brasil 2011. Além disso, na época em questão do torneio, eu estava passando problemas de saúde na minha família e vi no futebol o tal escape semanal para as terríveis preocupações. O livro então também foi uma dívida de gratidão nesse aspecto: com o que o meu time do coração me proporcionou no quesito pessoal.

Na obra reservei o último capítulo para entrevistas, tentando assim passar para o leitor a impressão de diversos personagens que de alguma forma participaram da conquista do torneio. Foram entrevistados então comissão técnica e jogadores, jornalistas, sócios do clube e o MC Charles, responsável pelo funk e o termo Trem-Bala da Colina.

Gostaria de ter entrevistado mais jogadores do que consegui (apenas três: Eder Luis, Rômulo e Fellipe Bastos), mas o contato pouco amistoso de alguns assessores de imprensa de outros atletas me desanimou a insistir. Mantive apenas os três que consegui mesmo, aliás excelentes entrevistas.

Você contou com o apoio do clube?

Em ambos livros não tive nenhum apoio do clube. Mas é uma questão complicada a do licenciamento. Embora não concorde, até entendo o lado do clube. Ajuda mesmo tive por parte do gentil Sr. Walmer Peres do Centro de Memória do Vasco, que me enviou material necessário para o segundo livro. Fiz questão de manifestar minha gratidão por ele na seção de agradecimentos.

Você acha que o Brasil preserva adequadamente a memória esportiva?

Não. Seja em âmbito coletivo ou até mesmo individual. Os clubes não sabem preservar e, principalmente, fomentar para os mais jovens as suas glórias e histórias do passado. Conheço colecionadores que possuem verdadeiros museus em suas casas, com esforço próprio, gastando do próprio suado dinheiro, enquanto os clubes que têm acesso e poderio financeiro gigantesco não fazem nada similar.

Uma coisa que vejo como um gap é que nenhum clube possui dentro de seus departamentos de marketing, pessoas responsáveis por constantemente promover a história do clube, o seu maior patrimônio. Partindo da premissa de que desempenho esportivo não é uma fórmula matemática ou uma receita de bolo a ser seguida (temos exemplos de clubes bem administrados, mas que não ganham nada em campo e também, do outro lado, clubes instaurados em verdadeiros caos administrativos, mas que conseguem levantar taças), os clubes deveriam, independente da fase que vivem, promover seus feitos para alcançarem novos fiéis seguidores, digo, torcedores. E divulgar a história e o passado passa diretamente por uma atuação forte na literatura com o lançamento de boas obras.

Passando para o âmbito nacional, do esporte em geral, o brasileiro tem uma memória curta com seus ídolos ou, em determinados casos, seletiva. Um dos maiores goleiros que o país já teve, Moacir Barbosa, morreu sendo crucificado pela falha na Copa do Mundo de 50, enquanto a geração playstation segue sendo exaltada de tal forma, como se perder por 7 x 1 fosse o mesmo que por 1 x 0: uma fatalidade.

Seus livros são ligados ao seu clube de coração. Existe alguma possibilidade de mais para frente você vir a fazer trabalhos com outras temáticas?

Sim. Tenho a vontade de expandir os horizontes, até mesmo para não ficar marcado como alguém que somente escreve sobre o clube do coração. No momento estou cursando uma segunda pós, em Direito Desportivo, e dependendo de como fique o trabalho de conclusão de curso, posso vir a publicá-lo.

Você acha importante uma aproximação maior entre leitores e autores? Como analisa a ideia do público conhecer os livros a partir dos autores?

Com certeza. Sem dúvida. Um espaço como o seu é de extremo valor para os dois lados: autores e leitores. Através de uma entrevista, por exemplo, o leitor pode criar empatia por um autor que até então não conhecia e assim buscar as obras deste.

Algum novo projeto para os próximos meses?

Como citei antes, nos próximos dias lanço meu segundo livro como autor (“Copa do Brasil 2011 – Norte e sul deste país!”) e no mês seguinte o quinto como editor (“Mulheres impedidas – A proibição do futebol feminino na imprensa de São Paulo”).

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