Entrevista com Odir Cunha

Odir CunhaNascido em 1952, casado com a professora de educação física Suzana Silva, dois filhos, paulistano, tendo sempre vivido na capital, Odir Cunha é formado em jornalismo pelas Faculdades Integradas Alcântara Machado em 1978.

Fale-nos um pouco da sua trajetória profissional.

Antes, permita-me dizer o que os livros representam para mim: TUDO. Isso mesmo: tudo. Primeiro, me educaram, preencheram meus sonhos, melhoraram meu português, me deram ideias e criatividade. Sim, talvez mais do que meus pais, os livros me educaram. Aos 17 anos já tinha lido uns 400 deles. Então, já sonhava ser escritor. Mas o caminho era longo. Minhas referências eram autores que eu considerava quase perfeitos, como Machado de Assis, Ernest Hemingway, Edgar Rice Burroughs, Júlio Cortazar, Gabriel Garcia Marquez, Monteiro Lobato.

Então, como eu queria viver de escrever, o que poderia fazer? Ser datilógrafo, escrivão de cartório ou de polícia ou… jornalista. Assim, decidi começar na reportagem.

Após estrear no jornal do colégio “o Gil”, aos 14 anos; no jornal de bairro “Mini Jornal”, da Cidade Dutra, aos 18 anos, onde passei de repórter a editor-chefe em um mês, e de fazer frilas para uma revista da Bayer, no bairro do Socorro, me tornei jornalista profissional em fevereiro de 1977, ao passar em uma seleção no peito e na raça e ingressar na equipe de reportagem do revolucionário Jornal da Tarde. O JT valorizava o texto criativo e dava bom espaço para as matérias. Em dois anos de jornal ganhei dois Prêmio Esso de Informação Esportiva: um com a equipe de esportes, pela cobertura da Copa da Argentina, em 1978, e outro com o colega Castilho de Andrade pela cobertura dos Jogos Pan-americanos de Porto Rico, em 1979.

Porém, recebi uma proposta e saí do jornal em outubro de 1980 para ser subeditor da revista TenisEsporte. A partir daí a lista é longa: Rádios Globo/Excelsior, pelas quais ganhei três prêmios APCA, jornal O Globo, revista Play Tennis News, revista Tênis Ilustrado, Jornal da Tarde, Ampla Comunicação (empresa que abri com o amigo João Pedro Bara e durou 10 anos), TV Record, revista Match Point, lancei a Revista do Futebol, Rádio Record, diretor de comunicação da Secretaria Municipal de Esportes, Jornal da Tarde de novo, Revista TÊNIS, coordenador do Centenário do Santos Futebol Clube, editor da Editora Novo Conceito, editor da Editora Magma Cultural, curador do Museu Pelé, dono do Blog do Odir e, desde 1989, também autor de livros.

Como e quando o esporte entrou em sua vida?

Aos seis anos comecei a jogar futebol e acho que isso fez bem para minha autoestima, pois aprendi a driblar e marcar gols. Queria ser jogador de futebol, virei santista porque toda criança inteligente e de bom gosto era santista no meu tempo, Risos, e aos 14 anos já jogava na seleção de futebol de campo e de salão do meu colégio, o Padre Francisco João de Azevedo, quando estourei o joelho. Usei gesso dois meses e meio. Voltei sem fazer uma boa fisioterapia e quebrei no mesmo lugar. Aí o médico me recomendou praticar um esporte menos violento. Aos 21 anos comecei a jogar tênis e, para consolo, fui o número um do ranking da imprensa por 14 anos seguidos, com exceção de alguns meses em que fui superado por meu sócio João Pedro Bara. (risos)

Queria ser atleta. Adoro a competição, o treinamento, a preparação para render o máximo. Sempre me considerei com boa disciplina, alguma técnica e muita garra. Como repórter, procurei sempre me colocar do lugar do atleta e do torcedor. Isso me ajudou a encontrar a empatia certa para escrever as matérias.

Você já escreveu dezenas de livros. Conte-nos um pouco sobre eles.

O primeiro deles, “A história do tênis feminino brasileiro”, de 1989, foi um pedido do Sesc. Creio que até hoje seja essencial para quem quer estudar a história do tênis brasileiro. Em 1997, a convite da editora Best Seller, fui o biógrafo de Oscar Schmidt e juntos chegamos à marca que o tornou recordista mundial extraoficial de basquete. Em dezembro de 2003, após mais de 10 anos de pesquisa (não havia Google), lancei “Time dos Sonhos”, pela editora Códex, um livraço de 523 páginas, apelidado de “A Bíblia do Santista”, que esgotou três edições e foi o meu maior sucesso até então. Eu o relancei em 2015 e ainda tenho exemplares para quem estiver interessado. (risos)

Após “Time dos Sonhos” fiz uma série de livros sobre a rica história do Santos, entre eles “Donos da Terra”, sobre a conquista do Mundial (ou Intercontinental) Interclubes de 1962, para o qual entrevistei também jogadores do Benfica; “Na Raça!”, sobre o bicampeonato mundial santista de 1963; “Pedrinho escolheu um time”, uma ficção para crianças; “O Grande Jogo”, com o amigo Celso Unzelte, sobre o duelo alvinegro entre Santos e Corinthians; três livros em homenagem ao Centenário do Santos e entre eles “Santos FC, 100 anos de futebol arte”, que vendeu mais de 12 mil exemplares e é considerado o livro de arte mais vendido do Brasil, a ponto de figurar na lista de mais vendidos da revista Veja.

Ao todo tenho 11 livros editados sobre o Santos, por nove editoras diferentes. Não chequei ainda, mas acredito que deva ser um recorde digno do Guinness. (risos)

Em 2007 escrevi “Heróis da América”, o livro mais completo já publicado sobre os Jogos Pan-americanos – capa dura, muito bem editado pela Editora Planeta, que me rendeu dois dos três blocos do Programa do Jô. E em 2008 lancei “Sonhos mais que possíveis”, também pela Planeta, com 60 histórias de superação de atletas olímpicos.

Meu último lançamento, com a presença de jornalistas de todo o mundo – não por minha causa, mas por causa do Pelé, claro, (risos) – foi “Segundo Tempo, de Ídolo a Mito”, uma obra-prima do editor de arte Clero Junior, da Editora Magma Cultural, lançado no Museu Pelé no primeiro dia que o Rei do Futebol apareceu em público depois de sofrer uma grave crise renal.

Mas meu trabalho literário mais importante acabou sendo o “Dossiê Unificação dos Títulos Brasileiros” a partir de 1959, que pesquisei e escrevi em parceria com o amigo José Carlos Peres. Transformado em livro em 2011, o Dossiê impediu que os clubes campeões brasileiros na Era de Ouro do futebol nacional, de 1959 a 1970, fossem esquecidos.

Como escolhe os temas?

A maioria dos meus livros foram encomendados. Depois de fazer “Time dos Sonhos”, creio que tenha me tornado uma referência entre os pesquisadores e escritores do Santos e por isso recebi pedidos para fazer outras obras. Escolhi fazer o do Pan, o dos atletas olímpicos, e quero fazer outros sobre o Santos, o futebol e o tênis. Veremos se terei força e fôlego.

Quais as maiores dificuldades que você encontrou quando estava escrevendo os livros?

A maior dificuldade é a disciplina, o trabalho às vezes cansativo de pesquisa. Escrever é a melhor parte, mas mesmo assim exige uma abnegação incrível. Já tive dificuldades com prazos, hoje sou rápido, mesmo fazendo questão de cuidar pessoalmente de toda a pesquisa.

Porém, a maior dificuldade, mesmo, é a solidão, horas e horas convivendo só com você e o computador, no seu escritório abarrotado de livros, revistas e jornais velhos. (risos) Mas tem de ser assim. Se o escritor desviar a atenção e perder o ritmo de trabalho, não termina nenhum livro.

Como você vê o mercado editorial brasileiro para os livros esportivos?

Se o objetivo é ganhar dinheiro, viver exclusivamente disso, é extremamente difícil, talvez impossível. Para você ter uma ideia, o Marcelo Duarte, editor da Panda Books, ao receber uma proposta minha para mais um livro sobre o Santos, me respondeu, esnobando: “Ah, Odir, livros do Santos só vendem mil exemplares”. E o pior é que ele não estava muito errado. Conheço algumas obras que nem chegaram a vender essa quantidade. Na média, consigo vender mais, porém meu objetivo com os livros do Santos é ajudar a perpetuar a história maravilhosa desse time e desses jogadores.

Considero que faço um marketing cultural voluntário para o time que amo. Isso, para mim, não tem preço. A grande recompensa do autor é essa: perpetuar a história. Ganhar dinheiro, eu pretendo com outros livros. Estou indo para a área de ficção, agora.

Apesar de um mercado ainda restrito, vemos que anualmente são lançados centenas de livros esportivos. Afinal, livro que tenha esporte como tema alcança uma boa vendagem?

Há livros que tiveram uma boa vendagem, sim. O do goleiro Marcos (“Nunca fui Santo”), da Editora Universo dos Livros, escrito pelo amigo Mauro Beting, foi um best-seller. Washington Olivetto também escreveu um sobre o Corinthians que vendeu 30 mil exemplares, marca que o faz ser considerado um best-seller no Brasil. Porém, mesmo que eu receba uma proposta milionária para escrever livros sobre outros times, jamais o farei. Meu barato é o Santos.

Quais seus projetos para 2017?

Tenho três livros prontos para serem impressos: o primeiro deles, de capa dura, um documento importante, contará a história do tênis brasileiro e da Confederação Brasileira de Tênis; o segundo, outro table book, será uma obra belíssima sobre Gustavo Kuerten, com imagens inéditas, que escrevi em parceria com o inglês Ricardo Lay para a editora Magma Cultural, e o terceiro, a ser lançado pela Editora Summus, intitulado “Lições de Jornalismo”, conta o que de mais importante aprendi na carreira. Com esses três chegarei aos 28 livros editados.

No momento estou terminando a minha primeira ficção científica, cujo nome ainda não posso divulgar, nem o nome da editora, e também estou escrevendo, em parceria com Marcelo Fernandes, o livro “Santos FC, o maior espetáculo da Terra”, para a Editora Onze, retratando os 20 anos mais espetaculares das viagens do Santos. O Marcelo é um colecionador de tudo o que você pode imaginar sobre o Santos de 1954 a 1974. Sei que o livro ficará lindíssimo também.

Ainda em 2017 quero fazer o livro de Juary, ídolo do Santos e do Porto, e outro livro de futebol que ainda é segredo.

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