Entrevista com Rafael Casé

Rafael CaséJornalista, formado pela UERJ, Rafael Casé  começou sua carreira no “falecido” Jornal dos Sports, o cor de rosa. Depois se embrenhou pela TV e nos últimos quase 30 anos passou por diversas emissoras como Manchete, Globo, SBT e TV Brasil, onde hoje trabalha. Também é professor da Faculdade de Comunicação Social da UERJ.

O seu primeiro livro, “O artilheiro que não sorria”, foi a biografia do artilheiro Quarentinha. Por que a opção de escrever sobre o jogador?

Na verdade o primeiro livro foi “100 anos Gloriosos – almanaque do centenário do Botafogo“, escrito em parceria com o jornalista Roberto Falcão e lançado pelo Diário Lance.

O artilheiro que não sorria“, a biografia de Quarentinha surgiu como um convite do editor César Oliveira. Foi um grande presente para mim. Conhecia muito pouco sobre o maior artilheiro da história do Botafogo e ao me embrenhar na vida e na carreira de Quarentinha, o artilheiro que não sorria, vi o quão rica era aquela trajetória. É um livro pelo qual eu tenho enorme apego. Brinco dizendo que poderia passar a usar o sobrenome Lebrego, tal foi meu envolvimento com ele.

O livro, apesar de lançado por uma editora que na época estava entrando no mercado, teve uma excelente vendagem. Quais fatores, na sua opinião, conjugaram para que livro obtivesse tanto sucesso, tendo inclusive tido posteriormente uma nova edição por uma outra editora?

Esta é uma pergunta que me faço sempre. Quarentinha não era um jogador com a mesma projeção de outros ídolos daquela época. E, apesar de sua importância para o clube, nunca teve o reconhecimento necessário pelo Botafogo e por seus torcedores. Acho que o segredo está na riqueza da história de Quarentinha que, na verdade, é um pouco da história de todos os jogadores que viveram o futebol daquele tempo. Um misto de futebol, boas histórias e momentos de muita emoção. Eu mesmo me arrepio ao reler várias passagens.

Após o livro do Quarentinha, você escreveu outros ligados ao seu clube de coração. Conte-nos um pouco sobre eles.

O livro seguinte era um antigo desejo meu: homenagear o time de 1989. O fim do jejum de 21 anos sem títulos foi minha maior alegria no futebol até hoje. E duvido que haja alguma maior ainda por vir. Brinco dizendo que o Botafogo pode ser tricampeão mundial interclubes que a emoção não será a mesma daquele dia 21 de junho de 1989. Para escrever o livro “21 depois de 21” convidei Paulo Marcelo Sampaio, jornalista, amigo e contemporâneo. Fizemos uma grande festa em General Severiano, com direito a placa na parede e muita tietagem àqueles jogadores que me deram tanta alegria. Era um dever que eu tinha com eles.

O livro seguinte “Como esta estrela veio parar no meu peito“, partiu de uma ideia da Maquinária Editora: contar a história da fusão dos dois Botafogos. Gostei da ideia e a ampliei, resgatando a história dos dois clubes até a sua junção em 1948. O destaque ficou para o episódio trágico que gerou a fusão, a morte em quadra de Armando Albano, jogador do Botafogo Futebol Clube em uma partida contra o Club de Regatas Botafogo. Consegui descobrir a família dele, em São Paulo, o que enriqueceu demais o relato. Fora isso, esse encontro também proporcionou o resgate de um importante item da história do Botafogo. O filho e o sobrinho de Armando me repassaram a camisa que ele usara naquela partida fatídica. Estava guardada com eles desde então. Quase tive um troço ao receber aquele presente, a camisa se encontrava cortada por causa do atendimento ao qual ele foi submetido ainda no vestiário. O Botafogo fez uma cerimônia de entrega da camisa pela família durante um Feijão do Fogão, no Engenhão. Não sei quem chorava mais, o filho e o sobrinho de Armando Albano ou eu. Hoje a camisa está exposta na sala de troféus do clube.

Pesquisando em antigos jornais, certa vez, dei de cara com uma crônica do jornalista Maneco Muller, que usava o pseudônimo Jacinto de Thormes, na Última Hora. Era sobre Nilton Santos. Na verdade se tratava de uma série de crônicas com o título “O Velho e a Bola“. Foram mais de cinquenta. Depois de ler todas decidi que aquilo tinha que ser resgatado e lançado com o mestre Nilton ainda vivo. Uma homenagem a ele. Foi um trabalho doido. Fizemos um mutirão de digitação das crônicas. Selecionei umas 35 mais relevantes e lançamos em tempo recorde. Neilton, dente, não pode comparecer, mas uma colaboradora, a Pamella Lima mostrou o livro pra ele. A gravação dessas imagens foi exibida em General Severiano no dia do lançamento.

E por último, em 2015, lancei, junto com o amigo Claudio Portela, outro livro de tributo, “95 A tua estrela brilha“, dessa vez ao time que conquistou o Campeonato Brasileiro de 1995. Uma festa bonita como a que fizemos para o time de 89. Conseguimos ouvir quase todos os envolvidos na conquista, entre jogadores, dirigentes, jornalistas e torcedores. Até o piloto do voo que trouxe o time de volta para o Rio e pousou num Santos Dumont invadido pela torcida conseguimos ouvir.

Como você analisa o fato de todos os seus livros estarem tendo uma ótima recepção do público?

Futebol é emoção, mexe com a paixão das pessoas. É essa paixão que tento retratar nos livros. O trabalho é jornalístico, mas tem que emocionar as pessoas.

Quais as maiores dificuldades que você encontrou quando estava escrevendo os livros?

A maior dificuldade é sempre a pesquisa. Cavucar fatos, depoimentos, fotos, documentos é sempre muito trabalhoso. Mas só um bom material de pesquisa é que pode garantir um livro com conteúdo, um livro que traga fatos novos, mesmo quando se fala de episódios bem antigos.

Apesar de um mercado ainda restrito, vemos que anualmente são lançados centenas de livros esportivos. Como você vê o mercado editorial?

O mercado editorial de livros esportivos já esteve melhor. Atualmente segue a tendência da economia nacional, ou seja, de torneiras bem fechadas. Espero que a gente consiga reverter isso. O fato é que, infelizmente, em nosso país, as pessoas leem cada vez menos.

Quais as maiores dificuldades para quem escreve livros no Brasil?

Escrever livros, no Brasil, é quase que uma questão quixotesca. Muito trabalho para um retorno bem modesto. Muita satisfação pessoal e pouca recompensa financeira. Um autor ganha 10% do preço de capa. Quando se escreve um livro em dupla, fica só 5% pra cada um. Já tive entrevistados (e não vou citar os nomes) que disseram que só davam entrevistas se eu pagasse. Adoraria poder ajudar de alguma forma, mas com os ganhos que os livros rendem, só há dinheiro, praticamente, para retornar os custos de tempo e material dispendidos na tarefa. Livro não dá dinheiro. Quem pensar em retorno financeiro, nem deve tentar. Livro dá é prazer, para quem escreve e para quem lê.

Algum novo projeto para 2017?

Há alguns projetos na mira, mas não sei se serão já para este ano. O certo é que já já teremos coisa nova por aí. Depois que a gente começa a escrever, não quer mais parar.

3 thoughts on “Entrevista com Rafael Casé

  1. Parabéns ao Rafael Casé pelo trabalho importantíssimo de preservar a história do futebol e do seu, do nosso Botafogo, um patrimônio do futebol brasileiro. Sei como é essa luta e tiro o chapéu para quem entra nela. Parabéns ao site Livros Esportivos pela entrevista. Como a Internet permite textos bem maiores, sugiro que as entrevistas sejam mais longas. Dá vontade de saber mais sobre os autores e seus livros.
    Abraço!

    1. Caro Odir, muito obrigado pelo apoio. Você está certo. Podemos fazer entrevistas maiores. Ressalto que temos evitado isso em função de sabermos o quão ocupado são os autores.

      1. Não posso responder pelos outros, claro, mas acho que a maioria dos autores gosta de falar de seus livros e de seus processos criativos. E aprendemos muito com eles. Sugiro que tente, se estrilarem, paciência. Abraço!

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