Entrevista com Severino Filho

Severino FilhoAos 17 anos Severino Filho  já dava seus primeiros passos na crônica esportiva do futebol piauiense. Mas a influência tinha começando bem antes, aos 7, quando acompanhou de perto o começo do irmão Gomes de Oliveira que trabalhava nas transmissões da rádio Pioneira.

Desde os anos 1970, o cronista esportivo guarda o seu próprio acervo, colecionando fichas técnicas que o ajudam a escrever e deixar registrado tudo e todos que passaram e passam pelo futebol piauiense. Ao longo de 46 anos de pesquisa, Severino Filho conseguiu colher preciosas informações sobre os primeiros registros de futebol no Piauí, alguns deles já indisponíveis.

No acervo do autor, constam quase 5 mil fichas de jogos de clubes, pelas mais diversas competições. Assim como dados biográficos de dezenas de atletas, fatos marcantes da história de cada clube e registros fotográficos.

Para quem está acostumado a vivenciar o jornalismo esportivo piauiense sabe que ele é mais do que uma figura cativa e profissional nos jogos do futebol local. O cronista esportivo é fonte de informação, pesquisa e dono de uma memória futebolística que só ele tem.

Fale-nos um pouco da sua trajetória profissional.

Eu comecei com 17 anos, na Rádio Pioneira de Teresina, onde meu trabalho era datilografar a ficha técnica de cada jogo. Fazia isso em três vias e guardava uma para o meu arquivo. Esse foi o ponto de partida. Depois passei por várias emissoras, como Rádio Poti, Difusora, Tropical, Mirante, todas de Teresina. Atuei como plantão esportivo, repórter de campo e até narrador.

Na mídia impressa, trabalhei como editor de esportes e repórter em vários órgãos da imprensa piauiense, como Jornal da Tarde, O Estado, O Dia, Jornal de Serviços, Diário do Povo e Jornal Meio Norte. Nesta época, mais precisamente em 1990, passei a atuar como correspondente da Revista Placar, onde fiquei por cerca de 12 anos. Deste período, destaco a primeira edição do Tira-Teima, onde figurei como consultor. E o Prêmio Abril de Jornalismo, conquistado em equipe, com uma matéria sobre a Série C do Campeonato Brasileiro.

A publicação de um livro sempre foi um grande sonho. Terminei realizando-o em 1990, quando lancei o Curiosidades e Recordes do Futebol Brasileiro. Hoje já são vários títulos publicados, sempre na linha da memória do futebol.

Também fiz televisão. Fui o primeiro narrador da TV Cidade Verde. Tem até um gol narrado por mim que já rodou o mundo inteiro, mas não tem o crédito. Aquele gol do Geraldão, do Cruzeiro, de falta, contra o Piauí, em 1986. A narração é minha. É o gol mais bonito da carreira do Geraldão. Por ocasião da Copa de 2014, fiz um quadro Baú do Buim, onde mostrava artigos relacionados a Copa do Mundo. Tem alguns no youtube. E, nesta mesma época, também produzi muitas matérias para a revista Cidade Verde, do mesmo grupo da TV.

Paralelo a essas atividades, fui assessor de imprensa da Fundação de Esportes do Piauí e da Federação de Futebol do Piauí. E, atualmente, produzo o blog Site do Buim, além de dar sequência às minhas pesquisas para continuar publicando obras sobre o futebol do Piauí.

Como e quando o futebol entrou em sua vida?

Nos idos de 1968/69, quando tinha 7, 8 anos de idade, porque gostava de ouvir as intervenções de meu irmão mais velho, Gomes de Oliveira, que começava seus primeiros passos como radialista, na Rádio Difusora de Teresina. Depois de assistir, pela TV, todos os jogos do Brasil na Copa de 70, a coisa pegou em definitivo.

Você acha que o país preserva adequadamente a memória do esporte brasileiro?

Não. Se pensarmos na extensão territorial do país e do que já se fez nos esportes em geral, muito pouco foi preservado. E isso, na grande maioria das vezes, por obra de alguns apaixonados. Olhando pelo lado institucional, pouco se fez. Mas, admito, isso vem mudando. Mas muito gradativamente.

Você é considerado um verdadeiro arquivo do futebol do Piauí, pois além de possuir uma excelente memória, tem muito material. Conte-nos mais sobre o seu acervo.

A gente sempre é influenciado por alguém ou por alguma coisa. Meu irmão mais velho gostava de guardar coisas de futebol, e, em 1971, me deu de presente uma revista Placar. Eu comecei, então, a guardar também. Tudo que era possível eu fui guardando. E não tinha preferência. Qualquer artigo ia para meu acervo, como livros, discos, jornais, revistas, tudo. O tempo passou e hoje tenho mais de 20 mil peças, entre jornais, flâmulas, revistas, livros, times de futebol de mesa, chaveiros, camisas, e outras peças raras.

E nestes 46 anos, consegui algumas relíquias que enriquecem qualquer acervo, como o apito utilizado pelo árbitro Armando Marques no jogo inaugural do Estádio Olímpico de Munique, em 1972, entre Alemanha e União Soviética; um exemplar do livro O Futebol em São Paulo, de 1918; um superposter autografado por Mané Garrincha; flâmula do Bahia alusiva ao 1° título da Taça Brasil; camisas oficiais de jogo de dezenas de clubes, bem como de árbitros do futebol brasileiro, entre outras raridades.

Quais livros você já escreveu?

Curiosidades e Recordes do Futebol Brasileiro (1990), Fried versus Pelé, em parceria com Orlando Duarte – eu escrevia a biografia do Fried e ele a do Pelé (em 2000), Rivengo, o Clássico do Século (2001), Almanaque do Futebol Piauiense (2003), Piauí, 100 anos de futebol (2005) e agora a Coleção Severino Filho – Memória do Futebol Piauiense, que já tem dois volumes publicados.

O “Memória do futebol piauiense” é uma coleção. Serão quantos volumes? Qual a previsão de lançamento de cada um deles?

O projeto inicial é para 20 volumes, com 100 páginas cada. Publicamos os dois primeiros. Agora, em abril, será lançado o terceiro livro, com 182 páginas. Pelas pesquisas e o cuidado que procuro ter com o conteúdo, deve ficar mesmo em um por ano.

Qual é seu método de pesquisa e de trabalho quando está escrevendo um novo livro?

Nada que obedeça alguma orientação técnica ou científica. No projeto da Coleção Severino Filho, por exemplo, elaborei um organograma de conteúdo que atenda as necessidades da memória do futebol piauiense. Tenho um vasto acervo em casa e ficar com esse material entre quatro paredes não contribui para a memória do país.

Quais os maiores obstáculos que você encontra?

A nível de pesquisa, a falta de maiores informações sobre o futebol piauiense no período que antecede a década de 1960 é o grande problema. É preciso tirar leite de pedra para checar a maioria dos fatos. Outros nem assim. A distribuição e divulgação de livros com produção independentes – como os que tenho publicado –, também é um obstáculo que precisa de muito apoio para ser superado.

Você conta com o apoio dos clubes e da federação do estado?

Depende do que você entender como apoio. A memória do futebol, na maioria dos clubes, não faz parte das prioridades. No caso da Federação de Futebol do Piauí, reconheço que há um certo apoio. Mas o grande suporte para publicação de meus livros, a rigor, tem sido dado pelo Grupo Claudino S/A, do empresário João Claudino Fernandes, e pela Fundação Carnaúba, através do seu diretor Geraldo Magela.

O fato de retratar o futebol de um estado não reconhecido nacionalmente dificulta ainda mais o seu trabalho?

Não diria dificulta, pois sei compreender que um livro sobre futebol nacional sempre terá maior aceitação que um que retrate o futebol do Piauí. Sei isso por experiência própria, pois já lancei dois trabalhos a nível nacional – Curiosidades e Recordes do Futebol Brasileiro e Fried versus Pelé.

Todavia, já temos excelentes historiadores resgatando a memória do futebol brasileiro, como Celso Unzelte. Alguém precisa fazer o mesmo em cada Estado. Sem nenhum constrangimento, sem qualquer bairrismo, escrevo sobre o futebol do Piauí com a mesma motivação que teria se estivesse falando sobre grandes clubes do país. Apesar de respeitar a opinião de quem pense o contrário, como pesquisador, acho que é preciso resgatar o futebol do Oiapoque ao Chuí. O futebol brasileiro não se resume aos grandes clubes. São mais populares, vendem mais livros, mas não fazem a história sozinhos.

Apesar de um mercado ainda restrito, vemos que anualmente são lançados centenas de livros esportivos. Afinal, livro que tenha esporte como tema alcança uma boa vendagem? Como você vê o mercado editorial brasileiro?

Pode até não ser a vendagem que os coloquem naquela relação dos “dez mais”, porém, a própria produção, cada vez mais frequente, é um reflexo de que há espaço para o esporte na literatura brasileira. E acho que nosso mercado editorial, apesar de ainda olhar para o esporte com algumas ressalvas, já melhorou bastante neste segmento.

Você poderia nos contar algum caso pitoresco do futebol piauiense?

Existem muitos casos pitorescos. Vou contar dois, verídicos, sem aquelas bobagens do “vou ficar com a moto e dar o rádio pra mamãe”. E que não estão inseridos em nenhum dos meus livros.

O primeiro é de 1974. Jogavam Corinthians e Tiradentes, pelo Campeonato Brasileiro, no Pacaembu, e o Corinthians já ganhava por 1 a 0 quando o árbitro assinala uma falta próximo da área. Quando o Rivellino estava ajeitando a bola, o zagueiro Gilson, do Tiradentes, que jogou no grande Náutico da década de 1960, chegou para o maior ídolo corintiano da época e disse: “Você é quem tem o chute mais forte do Brasil, pois chuta em mim se for bom mesmo. Eu vou lá para a barreira”. Rivellino ajeitou a bola, tomou distância e mirou em cima do zagueiro do Tiradentes. Chutou bem em cima de Gilson, que se abaixou a tempo de não ser nocauteado, com a bola entrando no canto do goleiro piauiense. Gol do Corinthians.

Quatro anos antes, no Campeonato Piauiense, o Piauí tentava o penta quando, às vésperas de um clássico diante do Flamengo, o dirigente Reinaldo Ferreira levou todos os jogadores para um terreiro de macumba na cidade de Codó, interior do Maranhão. No salão principal, um preto velho paramentado com toda a indumentária e o tradicional cachimbo, se dirige a cada jogador e diz algo para cada um deles. Diante do maior goleador da equipe, Sima, toca-lhe a mão sobre a cabeça e diz:
– Você, rapaz, vai marcar um gol com 1 minuto de jogo.
Na tarde de domingo, 6 de setembro de 1970, Lindolfo Monteiro lotado, Flamengo e Piauí empatam por 2 a 2, resultado que deu o título do 1° turno ao Piauí. Com dois gols de Sima para o Piauí, o primeiro deles a 1 minuto de jogo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *