Entrevista com Wagner Augusto

Wagner AugustoFormado em Jornalismo, Wagner Augusto atua na Câmara Municipal de Betim. Amante do futebol desde criança, ele é um torcedor apaixonado do Villa Nova. Durante quatro anos e meio, o amor pelo clube levou Wagner a elaborar a publicação de “Almanaque do Leão do Bonfim”, uma obra de 680 páginas sem nenhum patrocínio. Foram gastos mais de 40 mil reais bancados pelo próprio autor da obra que eterniza a história do segundo clube mais antigo de Minas Gerais.

Além da falta de incentivo financeiro, o autor encontrou dificuldade para obter as fichas técnicas de determinadas partidas do Villa Nova. Ele conta que precisou viajar a cidades dos times adversários para garimpar informações. Para a pesquisa, Wagner recebeu ajuda de dois colegas, os jornalistas e co-autores da obra Rodrigo Rodrigues e Henrique Ribeiro, que elaborou o almanaque do Cruzeiro.

Além das viagens, Wagner obteve informações com ex-jogadores. No arquivo morto do Villa Nova, o autor conseguiu levantar um terço dos 30% dos jogos que não tinham registros em jornais. As estatísticas que compõem o livro também tomaram o tempo do autor, que se dedicou um ano para fazê-las.

Fale-nos um pouco da sua trajetória profissional.

Creio que minha vocação para o Jornalismo vem desde o útero da minha mãe. Jamais pensei em seguir outra profissão. Na infância queria ser jornalista para trabalhar como cronista esportivo, principalmente no rádio. Depois de graduar-me, em 1992, tive rápidas passagens por rádios e TV’s de Belo Horizonte e finquei o pé no segmento de assessoria de imprensa. Ajudei muitos jogadores de futebol a ficarem ricos e tive o prazer de trabalhar no Villa Nova por 10 anos, entre idas e vindas, entre 2003 e 2013. Meu trabalho efetivo, no entanto, é na Câmara Municipal de Betim, em que atuo como jornalista desde 1995.

Como começou a sua paixão pelos esportes, em especial pelo futebol?

Serei muito sincero: não sou um esportista; sou um futebolista. Gosto apenas de futebol, desde tenra idade. Essa paixão nasceu comigo. Amo o futebol de maneira profunda, para além de torcer pelo Villa. Gosto da história desse esporte e luto por preservar sua história.

Na sua opinião, por que o futebol desperta tanto interesse e exerce tanta influência no dia a dia das pessoas?

Porque é um pouco imponderável quanto aos resultados. De vez em quando Davi supera Golias. Porque tem empate! Não é um esporte maniqueísta. Porque não é monótono, envolve inúmeras variáveis. Porque é essencialmente popular, a despeito de tentarem elitizá-lo no Brasil com a edificação das malditas arenas, erguidas, em grande parte, com o dinheiro sujo da corrupção. Gosto de estádio e não suporto essa modinha de arena. O futebol envolve as pessoas no cotidiano por ser um caldeirão de sentimentos, ao contrário dos demais esportes, cuja repercussão se encerra ao final dos jogos.

Você acha que o país preserva adequadamente a memória esportiva?

Não. O brasileiro, via de regra, gosta do time dele e não se liga no futebol de maneira geral. Os clubes, geridos por incontáveis mentecaptos, não dedicam dinheiro e tempo para preservar suas ricas histórias. A maioria dos jornalistas não consegue lembrar a escalação dos times que jogaram ontem e não têm o cuidado de anotar e guardar esses dados. O Brasil, de modo geral, é um país sem memória; basta ver como o povo vota em ladrão a cada eleição ou escolhe o mais corrupto entre duas opções ruins. Felizmente, de 15 anos para cá a literatura futebolística avançou graças a uma minoria de malucos, como eu, que resolveu colocar a mão na massa e lançar importantes registros históricos. Muita porcaria é publicada, principalmente sobre os tais times grandes, porém, é melhor do que nada.

O seu livro “Almanaque do Leão do Bonfim” é um minucioso trabalho sobre a história do Villa Nova. O que o motivou a escrever o livro?

O desejo de manter registrada e acesa a história do meu time do coração, que já foi o mais poderoso de Minas Gerais e foi encolhendo no decorrer das décadas. O Villa foi abandonado pela mídia há tempos e se eu não fizesse esse resgate, as gerações futuras jamais saberiam da existência do Leão do Bonfim. Lembrando que o Almanaque foi o meu segundo livro lançado para contar a trajetória do Villa. O primeiro veio à luz em 2008: “Villa Nova: 100 anos de glórias em vermelho e branco”.

Qual a maior dificuldade que você encontrou?

A falta de registros históricos na mídia impressa a partir dos anos 1990. Há buracos negros terríveis em alguns anos. Consegui preencher essas lacunas com muito esforço, às vezes na cidade de origem do adversário.

Você publicou o livro de forma independente. Foi uma opção ou você não teve outra saída?

Foi por absoluta falta de opção! Tentei vários patrocinadores e nada. O livro estava no prelo e eu não poderia evitar o nascimento de uma obra seminal sobre a história do meu time do coração. A saída foi enfiar a mão no bolso e bancar todos os custos de publicação, que são altíssimos.

Como você vê o mercado editorial brasileiro para os livros esportivos?

Tem melhorado, no entanto, falta apoio dos patrocinadores. A Lei Rouanet, apesar de muitos absurdos, é uma boa iniciativa do Governo Federal. Precisa haver bom senso em sua aplicação. Quem precisa de incentivo é o autor anônimo que escreveu um livro a respeito do E. C. Siderúrgica, por exemplo, e não Chico Buarque, Maria Bethânia e Caetano Veloso, que recebem milhões e são individualmente capazes de se virar sozinhos.

Você acha importante uma aproximação maior entre leitores e autores?

Claro! Sempre. O livro é um organismo vivo. Recebi inúmeras e valiosas informações sobre dados que publiquei em meus livros. Foram correções, sugestões e críticas que enriqueceram meu banco de dados. Gosto demais de interagir com o leitor e saber que o cidadão interessou-se em ler algo que publiquei.

Além de jornalista e escritor, você é um colecionador de camisas de futebol. Conte-nos sobre a sua coleção, como você começou e a quantidade de peças.

No início, em 1991, era uma coleção eclética. Minha primeira camisa oficial de jogo foi do Criciúma, campeão da Copa do Brasil daquela temporada. Depois segmentei minha coleção e passei a privilegiar o Villa, por motivos óbvios. Em 2014 investi nas camisas da Portuguesa, meu clube em São Paulo. Hoje meu foco está centrado nesses dois clubes. Em números redondos, tenho 100 camisas do Villa, 120 da Lusa e outras 100 de diversos times. O objetivo é preservar a história do futebol por meio dos mantos.

Algum novo livro previsto para 2017?

Nem para 2017, nem para nunca mais! Já deu! Somente na outra encarnação. Publicar um livro é trabalhoso demais no Brasil. Dei minha modesta contribuição para a literatura esportiva e vou continuar a cuidar da minha família e curtir o futebol como aficionado, torcedor e leitor!

3 thoughts on “Entrevista com Wagner Augusto

  1. Só posso cumprimentar o jornalista e escritor Wagner Augusto, que eternizou a história do seu Betim com muita dedicação, trabalho de pesquisa e texto e, estou certo, muito amor. São pessoas você você, Wagner, que mantêm a história do futebol brasileiro viva. Forte abraço meu caro! E parabéns ao site Livros Esportivos pela entrevista.

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