Entrevista com Michel Costa

Michel Costa Formado em Administração pela UFSJ no período em que o Brasil finalmente derrotou o monstro da inflação, Michel Costa conheceu o futebol através de um grande clube carioca, mas teve o despertar dessa paixão provocada pela Seleção Brasileira e os gols arrebatadores de Romário contra o Uruguai em 1993.

Gols que levaram a Seleção à Copa do Mundo e, em seguida, ao sonhado tetracampeonato mundial nos Estados Unidos. Hoje, enxerga a camisa amarela como se fosse a do próprio time do coração.

É autor, ao lado do jornalista André Rocha da obra É Tetra – a conquista que ajudou a mudar o Brasil, pela editora Via Escrita.

Fale um pouco sobre os primeiros passos de sua relação com o futebol e como surgiu a ideia da obra?

Minha relação com o futebol está totalmente ligada à seleção brasileira. Tinha 17 anos em 1993, ano em que me tornei um apaixonado pela seleção, justamente na partida (Brasil 2 × 0 Uruguai) em que o Brasil carimbou o passaporte para o Mundial dos Estados Unidos. Até então, acompanhava futebol, mas não era fanático. Esse sentimento nasceu com aquela equipe.

O livro surgiu meio por acaso, pois a leitura é uma outra paixão. Contar somente a saga da equipe comandada por Parreira não seria suficiente. Precisava contextualizar tudo com o momento vivido pelo país.

Quando decidi que essa boa história valeria um livro, encontrei no jornalista André Rocha – que também viveu intensamente aquela época – o apoio que faltava.

Sua formação é ligada à área acadêmica?

Sou formado em Administração pela UFSJ. Talvez seja esse lado administrador que me faça olhar o futebol também por outros aspectos que não apenas campo e bola. Ter sido universitário naquele período também me ajudou a entender o contexto econômico e social do Brasil nos primeiros anos da década de 1990.

De que maneira a conquista ajudou, de fato, nas mudanças pelas quais passou o país naquele período?

Ajudou na elevação da autoestima do brasileiro que andava em baixa após a ditadura militar e os anos de caos econômico, quando a inflação anual chegou a romper a casa dos quatro dígitos.

Costumo dizer que todos os traumas brasileiros foram representados na letra da “Inútil” do Ultraje a Rigor. Temos ali eleições, dívida externa, corrupção e, claro, futebol. Mas o trecho “a gente joga bola e não consegue ganhar”, assim como outros, perdeu o sentido de 1994 em diante.

O que você destacaria, em se tratando dos aspectos físicos, técnicos, táticos e psicológicos do grupo comandado pelo Carlos Alberto Parreira e que tinha Dunga como capitão?

Aquela Seleção tinha um dos melhores preparos físicos da Copa. Um trabalho iniciado no Rio de Janeiro e concluído na Califórnia. No início dos trabalhos, o preparador Moraci Santana exigiu bastante do grupo e alguns jogadores como Branco e Ronaldo sentiram bastante. Segundo os jornais da época, as dores lombares sentidas pelo lateral se originaram naquele momento.

Foi quando Parreira, experiente também nessa área, interveio no sentido de diminuir um pouco a carga. Mesmo assim, nenhuma seleção correu mais do que a brasileira naquela Copa. Os treinamentos realizados nos horários das partidas também ajudaram na preparação. O Brasil voou fisicamente.

Tecnicamente, a seleção sofreu um pouco no meio-campo. Zinho, Raí e depois Mazinho não conseguiram desempenhar as funções ofensivas como Parreira e os brasileiros esperavam. Apesar de tocar muito bem a bola, algo que o técnico não abria mão, o time se ressentia de uma maior aproximação dos meias da dupla Bebeto e Romário. Assim, os lançamentos longos partindo da defesa ou de Dunga se tornaram alternativas mais frequentes do que o desejado.

Felizmente, os dois atacantes atravessavam um momento formidável e conseguiram compensar aquela que talvez fosse a única deficiência da equipe.

Taticamente não havia grande mistério. O time jogava com duas linhas de quatro, embora Mauro Silva recuasse mais do que Dunga para ajudar na saída de bola e na proteção à defesa. Uma função bem parecida com a que Luiz Gustavo desempenha atualmente no time de Scolari.

Mauro foi, de longe, o maior ladrão de bolas da equipe e o jogador mais regular também. Seguindo a tendência da época, Bebeto e Romário tinham poucas obrigações defensivas, privilégio que o futebol contemporâneo não permite mais.

Era um grupo muito experiente e que estava completamente ciente de sua missão nos EUA. A média de idade era uma das mais altas entre os 24 selecionados e os titulares contavam com oito atletas que militavam na Europa.

O Brasil de 94 era um time que se reconstruiu depois do fracasso de 90. O rótulo de “pragmático” é justo? Por que o público em geral, e boa parte da crônica esportiva, alimentou isso?

O rótulo de pragmático talvez seja, pois Parreira raramente rompia com a estrutura tática previamente definida, preferindo apostar na solidez que obteve durante a preparação. Contudo, é importante não confundir pragmatismo com retranca, uma vez que estamos falando de um time que sempre ocupava o campo ofensivo, trocava muitos passes e que nas sete partidas daquela campanha só perdeu em posse de bola para a Holanda.

* entrevista originalmente publicada no site universidadedofutebol.com.br

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